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Toda a Beleza e Tristeza de Yasunari Kawabata

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Nesta história de paixão, ao mesmo tempo lírica e aterradora, narrada com a mais desconcertante serenidade, Oki Toshio, um escritor de meia-idade, faz uma viagem nostálgica a Kyoto para ouvir os sinos dos templos soarem na noite de Ano-Novo. É movido também por outro desejo: reencontrar Otoko, que fora a sua amante vinte e quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome.

Boa noite, passageiros! ( ゚▽゚)/コンバンハ É uma honra para mim escrever sobre esse livro. Foi o que me introduziu verdadeiramente dentro do mundo japonês do Kawabata. Graças a esse livro, me apaixonei pela escrita antiga e absorvi muito conhecimento acerca dos elementos do Japão tradicional, que carregam significados fortes mesmo numa época atual. Confesso que, ao ler o título, imaginei que a obra traria um daqueles amores impossíveis, bonitos, mas tristes (Sad but true, man), mas me surpreendi completamente. Apesar de haver um casal protagonista (se é que se pode chamar Otoko e Oki de casal), o ambiente tem muita participação na história, de uma maneira que você sente que, se não fosse ali, naquela hora e lugar, as coisas poderiam ter sido incrivelmente diferentes. Gosto de ler obras assim, que me transportam para o lugar em questão, me tornam observador curioso, secreto, como se fosse eu a narrar a história sob meu ponto de vista. O amor, dentro dessa história, como diz o título, é bonito e triste ao mesmo tempo. É singelo, mas melancólico, verdadeiro, mas ciente do fato de que terá de permanecer para sempre apenas dentro do coração de dois apaixonados. Para sempre...

Quando decidi ler Beleza e Tristeza (do original Utsukushisa to Kanashimi to), já havia lido outros trabalhos do Yasunari Kawabata e me senti particularmente inclinada a ler esse romance porque me pareceu, pelos comentários que ouvi, um ótimo livro. Foi publicado em 1964 e foi o último romance de Kawabata (já que a última obra foi um livro de contos). Foi traduzido no Brasil pela Editora Globo e o prefácio foi escrito por Teixeira Coelho, que falou um pouco sobre o estilo de escrita de Kawabata e do objetivo do autor com aquela obra, a de chocar, de deixar uma sensação de incômodo. Chegou a ser adaptado para o cinema, mas dificilmente se encontra pela internet afora informações sobre as duas produções, sendo a primeira feita por Masahiro Shinoda, em 1985, e a segunda por Joy Fleury, vinte anos depois.

A história me prendeu do começo ao fim (não muito no fim, mas explicarei porque no decorrer desta review), e de fato me chocou. Um romance do passado, entre um homem casado de 31 anos e uma menina de 16, ainda bem nova. Confesso que o fator idade foi o que mais me prendeu, porque apesar da modernidade em alta que temos na nossa sociedade atual, e do liberalismo sexual e cultural, algumas coisas ainda nos chocam. Talvez por um pseudo-tabu interior, ou por uma mentalidade pré-formada. O fato é que os temas presentes na obra predominam em outros trabalhos de Kawabata, definindo seu estilo. Erotismo, sexualidade, paixão, a fragilização do ser humano perante o cotidiano, a morte, a traição, a vingança. Eu, particularmente, aprecio muito a maneira como ele conduz a narrativa, porque consegue variar entre uma linguagem suave, que se reflete nos momentos de diálogo, e uma mais intensa, forte, presente nos momentos de tensão, de choque entre os personagens. Nesse livro, Kawabata exerceu sua habilidade de transformar uma situação real em algo totalmente surreal (o que ilustra o fato de ele ter feito experimentações surrealistas no início de sua carreira, mas ter se estabelecido mesmo no impressionismo), os personagens se vêem diante de situações que remetem seus pensamentos à lembranças, saudades. Oki Toshio, um dos protagonistas de Beleza e Tristeza, faz isso com freqüência, se mostrando um personagem melancólico e que se deixa divagar muito fácil em suas lembranças sobre Otoko.

Oki Toshio, como mencionei antes, se mostra um personagem extremamente melancólico, preso às memórias e ao desejo de revivê-las, mas sempre acomodado. É um escritor de meia idade, 55 anos.  Ao viajar até Kyoto para ouvir os sinos de ano novo, seus pensamentos se voltam para a figura de Otoko Ueno, a menina (agora mulher) com quem teve um caso 24 anos antes. O amor que nutre por ela é absoluto, pois mesmo em todo o tempo em passaram distantes um do outro nunca foi capaz de esquecê-la e ela sempre se manteve viva em suas lembranças, se refletindo, por exemplo, em seu livro Uma garota de dezesseis anos, uma obra que fala sobre o tempo em que esteve com ela, mesmo casado. Sua esposa Fumiko sempre soube do caso, mas decidiu manter a família unida mesmo assim. Obviamente se mostra ciumenta em situações que envolvem Otoko, ou quando desconfia que o marido a tenha visto novamente, pois Fumiko também nunca poderia esquecer Otoko, claro, por motivos diferentes dos de Oki. Em contrapartida, Otoko, agora com 40 anos, se tornou uma pintora com certo renome. Vive em Kyoto, para onde mudara-se com a mãe depois de um longo e duro período após a perda de seu bebê, seu e de Oki, quando tinha 17 anos. No tempo atual do livro, mora em um monastério junto de Keiko Sakami, sua aprendiz, que a acompanhou no encontro com Oki para ouvir os sinos de ano novo. As duas mantém uma relação afetuosa (homossexual, embora o autor evite usar termos que afirmem isso), e Keiko se mostra muito impetuosa, obstinada, por vezes dissimulada e sem consideração pelos sentimentos dos outros, exceto pelos de Otoko. Desejava vingar Otoko, e por isso decide seduzir Oki e seu filho, Taichiro, que também se vê envolvido na trama de uma maneira inesperada.

Existem vários pontos positivos que posso citar (embora a maioria eu já tenha mencionado nas linhas anteriores), e, sintetizando-os, quero citar uma narrativa suave, limpa, embora abstrata e subjetiva, e temas reais, intensos, sempre elevados ao máximo, a ponto de nos trazer tesão e angústia simultaneamente. Outro ponto interessante a se comentar é que Kawabata quebra aquela imagem romântica que temos dos romances em geral, aquele clichê em que o mocinho sempre fica com a mocinha no final. Esse livro é dramático, intenso, e relata os sentimentos de Oki e Otoko, revezadamente, individuais, embora sejam um sobre o outro, ambos os personagens passam a maior parte do livro separados. O único ponto negativo que eu achei realmente digno de ser mencionado foi o final. No prefácio, como disse antes, o objetivo de Kawabata era incomodar, mas o problema é que ele incomodou demais! O final é tão brusco, mas tão brusco, que parece que alguém arrancou uma página da história e ficou por isso mesmo. Acho bacana finais pouco convencionais, e nem sempre tão definidos, mas achei que ele exagerou um pouco nesse ponto. E, de fato, incomodou. Então acabou saindo como o esperado, não?

Com um trama incrível, que situa o leitor às referências artísticas e culturais (sempre destacados por notas de rodapé), Beleza e Tristeza é, sem dúvida, um livro incrível, que te prende do começo ao fim, e te faz querer ler só mais uma página antes de fechá-lo temporariamente.

Esta review é uma republicação. Afim de encaixá-la ao novo formato do site, dentro das novas tags e divisões, estamos republicando-a.

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