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A vida secreta do senhor de Musashi, Junichiro Tanizaki

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"A vida secreta do senhor de Musashi" é um relato sobre a construção da personalidade perversa e atormentada de um senhor poderoso, um samurai, no Japão do século XVI. Para celebrar um pacto, Terukatsu Musashi é confiado ainda menino a um aliado do pai, senhor de um castelo próximo ao da família, para que este se ocupe da educação literária e marcial do futuro senhor de Musashi. Em 1549, aos doze anos, quando guerreiros de outro clã atacam o castelo onde vive, o garoto presencia a cena fundadora de uma obsessão erótica e necrófila que haverá de persegui-lo pelo resto da vida.

Boa noite, passageiros! (o・д・)尸~~おやすみ〜♪ Estamos aqui reunidos para celebrar... epa, fala errada. Com um pequeno atraso de postagens (o Dango Café é deveria ser atualizado toda sexta-feira), devido ao tempo que gastei terminando o novo layout (o que acharam? Não é lindo de morrer?!), estou de volta com mais um título sensacional. Vocês gostaram de "Um grito de amor do centro do mundo"? Tem uma temática extremamente dramática, diferente de "Após o anoitecer", com o qual estreei a coluna, e ainda mais diferente da obra que vou mostrar hoje. Apesar de ser um ótimo autor, Junichiro Tanizaki, nossa estrela de hoje, tem ainda pouca repercussão no Brasil (exceto pelos amantes de obras orientais que já conheciam seu trabalho), mas é hora de mudar isso! Trago para vocês "A vida secreta do senhor de Musashi", uma obra incrível que retrata não só o Japão feudal, mas apresenta um protagonista recheado de traços fortes e que viola a lei do mocinho bonzinho. O volume reúne duas novelas, que são comuns em relação à maneira como os personagens são construídos, sofrendo influência de seu passado, e como são conduzidos pelo autor. A primeira história é "A vida secreta do senhor de Musashi", a mais extensa e que dá nome ao livro, e a segunda é "Kuzu", que narra as desventuras de um rapaz pelo interior do Japão em busca de informações sobre sua falecida e estimada mãe.


Junichiro Tanizaki nasceu em 24 de julho de 1886 e, apesar de sua morte, com 79 anos, ainda é considerado o mais popular romancista japonês depois de Natsume Soseki. Tanizaki valorizava a beleza em contraposto ao objetivismo que se perpetuava na época, e um de seus interesses, e eventuais objetivos, era a preservação do estilo cultural e tradicional do Japão, refletido em todas as suas obras. Dentre seus títulos já traduzidos no Brasil estão Amor insensato (1924) Voragem (1928), Há quem prefira urtigas (1930), A chave (1956) e Diário de um velho louco (1962).

"A vida secreta do senhor de Musashi", a primeira novela do livro, é a que pode despertar mais espanto e curiosidade por parte do leitor (afinal, se você tem ou viu esse livro, certamente a parte "obsessão erótica e necrófila", no mínimo, chamou a sua atenção). Se trata de um relato em terceira pessoa (feita, provavelmente, por alguém próximo dele) contando a vida do samurai que veio a se tornar o senhor de Musashi. Em sua infância, durante uma batalha que houve no castelo onde ele estava vivendo (enviado pelo pai, graças a um pacto), ele se vê numa situação em que deseja desesperadamente presenciar um cenário de batalha. Ele, como filho de samurai e iniciado desde sempre nos princípios que rodeiam esta classe, almejava poder ver um verdadeiro campo de guerra com tudo o que tinha direito: corpos, sangue e o cheiro da vitória. O problema é que o consideravam novo demais e não lhe permitiam cruzar os muros do castelo, de modo que ele era obrigado a ficar junto das mulheres e crianças. Clandestinamente, ele é instruído por uma das mulheres, na madrugada, a acompanhá-la através do castelo em direção a um sotão fora dos aposentos onde dormiam. Foi ali que Terukatsu, Hoshimaru quando criança, vislumbrou uma cena que permaneceria em sua mente pelo resto da vida e transformaria radicalmente sua personalidade: Um grupo de cinco mulheres manejava cabeças de guerreiros mortos na batalha, que se desencadeava durante o dia, penteando-as, maquiando-as e preparando-as para parecerem vivas. Terukatsu foi acometido por uma extrema sensação de prazer, sexual e psicológico, ao ver aquelas cabeças passando de uma mão para outra. Foi um sentimento tão intenso, mas tão intenso, que o motivou a sair do castelo só para conseguir outra cabeça para o grupo de mulheres manejar novamente. Ele se enganava dizendo a si mesmo "esta é a última vez que venho aqui, é só para testar minha força de vontade", mas ele sabia, lá no fundo, que aquilo lhe despertava interesse, paixão. Tesão. Os acontecimentos futuros da história foram intimamente desencadeados por essa sua obsessão necrófila, bem como o final dessa trama recheada de sensações fortes e que vão contra tudo o que você já leu.

"Kuzu", a segunda novela, é bem mais leve. A introdução pode parecer confusa à leitores que não tenham o mínimo de conhecimento de cultura japonesa, porque é cheia de nomes na língua nativa e menções sobre lendas e regiões, mas, à medida que o texto avança, você acaba se acostumando e ligando os pontos. O início da história é muito misterioso, o narrador (que não se identifica) se apresenta como um escritor e amigo de Tsumura, o objeto alvo da trama. Apenas de Tsumura não ser o narrador, e nem de sua importância ficar evidente no início da narrativa, a história gira em torno dele. Ambos, narrador e Tsumura, decidem se encontrar, depois de muitos anos sem contato, e se aventurar pelo interior do Japão, nos proporcionando através de sua viagem descrições de um cenário lindo e ricamente composto de muitas cores e detalhes, totalmente surreal. A motivação do narrador é encontrar inspiração e colher informações para um romance que pretende escrever, e a de Tsumura, revelada mais tarde por ele mesmo, é a de encontrar os parentes de sua falecida mãe que deviam residir em algum lugar perto de Yoshino. A história é cheia de citações de poetas antigos e de cantigas e lendas populares do Japão, por isso é fácil ser envolvido pela atmosfera mística e singela dessa história.

Confesso que comprei o livro pela sinopse que vi a respeito de "A vida secreta do senhor de Musashi" que é obviamente chocante e diferente de tudo o que há por aí, mas a história se mostrou muito melhor do que eu imaginava.(●^▽^●)にまー・・・ Em ambas as narrativas me senti intimamente envolvida com os personagens, cada qual a seu modo, e me identifiquei muito com o estilo de escrita do Tanizaki (ainda não tinha lido nada dele). O texto é leve, mesmo nas partes mais severas, e flui de uma maneira muito agradável. Não é cansativo, não passa muito tempo parado no mesmo lugar, mas, ao mesmo tempo, não te passa a ideia de pobreza de descrições nem de narração. É uma habilidade que poucos escritores têm. A capa não me chamou muito a atenção, e, apesar de fino, o livro é bem caro. Acredito que seja por causa do peso que o nome "Companhia das letras" dá a um título. Apesar de não achar que o preço condizia com o livro, comprei. Não me arrependi e compraria de novo se fosse necessário. É o tipo de livro para se ter na coleção (até porque é difícil de achá-lo)! Deixo claro aqui que a temática da obra pode ser tão desagradável para alguns quanto é interessante para outros, por isso sinta-se à vontade para pesquisar mais sobre o livro e recomendo que leia outras resenhas sobre assunto, assim se sentirá seguro de que vai gostar da história. Só uma recomendação: vá de cabeça aberta! Se tiver como comprá-lo, compre. Se você gosta de histórias originais e não se importa que tenham cabeças rolando, te garanto, a leitura vai ser muito agradável.

É isso aí, meus queridos. Espero que tenham curtido! Não poupem comentários e críticas, aprecio muito recebê-los. Gostaria de agradecer aos fiéis leitores que sempre dão uma olhadinha aqui no Dango Café, a Vikky e o Jön, e ao meu editor pessoal, sr. Eiji. ヽ( ´ ▽ ` )ノ ハーイ Obrigada, seus fofos! E não esqueçam de me contar o que acharam do layout, hein?

Kissu ん〜〜 ( ̄ε ̄)

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