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A jovem de Suruga, Contos da Palma da Mão

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        Boa tarde, pessoas queridas do meu coração! (^○^)/ ヤッホー De antemão me desculpo por não ter postado no Dango Café semana passada, mas eis que há um bom motivo: O livro que estou lendo é imenso incrível! Por se tratar de uma obra bem volumosa, eu não consigo ler tão rápido quanto as outras, especialmente por ser um livro de contos e eu tenha a péssima mania de ter de parar alguns minutos para refletir sobre cada uma das histórias. Mas eu já queria este bendito livro há algum tempo, por isso estou me deliciando com cada página!
        Para não deixá-los abandonados ao relento (embora eu é que seja a abandonada aqui), pensei numa forma de termos um debate literário interessante. Trago hoje um dos contos de Contos da Palma da Mão, do Kawabata (é um conto do livro que estou lendo, e o autor nós já mencionamos aqui várias vezes), entitulado "A jovem de Suruga" (do original Suruga no Reijō) de 1927. A obra traz contos que Kawabata escreveu durante a vida, desde seus 17 anos até pouco antes de falecer, por isso é interessante perceber as mudanças em seu estilo de escrita no decorrer do livro. Sua literatura, como já foi mencionado aqui antes, é leve, sutil, mas extremamente profunda. Alguns de seus contos podem parecer não ter significado algum, mas tem. Sempre tem. O problema é que está nos detalhes e, infelizmente, as pessoas se acostumaram a não ter de pensar muito graças à quantidade de obras literárias que estão sendo lançadas diariamente em que não há qualquer profundidade na escrita, onde tudo é estregue prontinho para o leitor. ヘ(´o`)ヘ とほほ・・・・ Isso os faz ter preguiça de pensar e, por conseguinte, atrofia a capacidade de compreender o mundo nos mínimos detalhes. É hora de mudar isso, hein? Ainda dá tempo!
        A escolha do conto foi bem simples: passa-se num trem. Eu já li metade do livro, o que me dá uma gama de opções enorme, mas me ocorreu de optar por esse critério para associar aqui ao Expresso e brincar um pouco com as semelhanças entre os dois. Estão prontos? Então vamos!



A JOVEM DE SURUGA
(Suruga no Reijo, 1927)


        - Ai, ai, ai, eu queria morar aqui em Gotenba! Para mim, é uma hora e meia.
        Foi quando o trem chegou à estação Gotenba. Quem disse foi uma colegial que estava sentada feito um gafanhoto, com os joelhos dobrados e chutando o chão do vagão dos passageiros. Logo colou sua face no vidro do janela para ver as colegas que se despediam dela da plataforma, cumprimentando-a com olhares inocentes. Ela fez então um gesto impaciente de ombros, como se não suportasse mais o tédio.
        O trem ficava repentinamente vazio e triste na estação Gotenba. Quem faz uma longa viagem em trem comum, não em trens expressos, deve saber disso. Pela manhã, entre as sete e as oito, e à tarde, a partir das duas ou três, os vagões ficam repletos de mocinhas, como buquês de flores. Por causa dessas estudantes que vão aos colégios de trem, os vagões de passageiros ficam iluminados, mas um tanto barulhentos! E é tão curto esse espaço de tempo alegre e iluminado! São umas cinquenta garotas. Após uns breves dez minutos, não sobra mais nenhuma para a estação seguinte. Foi nessas viagens de trem que eu recolhi impressões de tantas garotas de diferentes regiões.
        Mas, dessa vez, eu não estava em longa viagem. Estava indo de Izu para Tóquio. Naquela época, eu morava numa região situada no meio das montanhas de Izu. Vindo de lá, baldeava na estação Mishima para a linha Tokaido, e o trem em que eu viajava sempre coincidia com esse horário florido. As passageiras eram estudantes dos colégios femininos de Numazu e de Mishima. Como eu ia uma ou duas vezes por mês para Tóquio, no espaço de ano e meio acabei memorizando os rostos de cerca de vinte dessas mocinhas. Lembrei-me dos tempos em que ia ao colégio de trem. Acabei por memorizar também algumas delas que costumavam subir em determinado vagão.
        Naquele dia, como sempre, eu estava no penúltimo vagão do comboio. O queixume da garota que falou "para mim, é uma hora e meia" se referia à distância entre as estações Numazu e Suruga; ela era de Suruga. Quem transpôs Hakone de trem deve conhecer Suruga, que fica além de Yamakawa e tem uma grande fábrica de tecelagem de cujos pátios e através das janelas as operárias acenam com panos brancos para os trens que passam. A garota parecia ser filho de um engenheiro, ou algo assim, daquela empresa de tecelagem. Tinha o hábito de pegar o penúltimo vagão. Era a mais bonita e a mais alegre de todas.
        Uma hora e meia de trem, duas vezes por dia, para ir e para voltar. Realmente, ela devia sentir seu corpo de gazela apodrecer por causa do longo trajeto. Além disso, no inverno, ela saía de casa ainda no escuro e retornava só depois de escurecer. O trem chega na estação Suruga às 5h18min. Porém, falando do meu ponto de vista, uma hora e meia era até breve demais. Era curto demais para observá-la. Ainda que sem prestar muita atenção, distraidamente, observava-a conversando, puxando um livro da pasta para ler, tricotando, brincando com as colegas sentadas longe. E, chegando em Gotenba, só restavam vinte minutos até Suruga.
        Assim como ela, eu acompanhava com o olhar as estudantes que se afastavam, caminhando na plataforma sob a chuva. Era dezembro. Na penumbra, as lâmpadas elétricas reluziam molhadas. Na distante montanha já na penumbra, os fogos de um incêndio florestal brilhavam na escuridão.
        Abandonando o ar animado que tinha até então, a garota ficou com uma expressão grave, e conversava em voz baixa com uma amiga. Estava para se formar em março do ano seguinte. Iria ingressar numa universidade feminina em Tóquio. Confabulavam a esse respeito.
        Quando o trem chegou em Suruga, não restava mais nenhuma estudante além dela. A chuva intensa batia na vidraça da janela onde eu encostava o rosto para me despedir da garota. No momento em que ela desceu do vagão, ouvi um grito.
        - Senhorita!
      Fiquei atônito ao perceber uma mocinha correr e abraçar a garota bruscamente.
        - Oh!
        - Eu a esperei! Podia ter ido no trem das duas, mas queria me encontrar com a senhorita antes...
        Depois, sob um guarda-chuva, as duas pareciam ter esquecido a chuva e, quase encostando seus rostos, conversavam apressadamente. Ouviu-se o apito da partida. A mocinha saltou para o trem e esticou-se toda para fora da janela.
      - Quando eu for para Tóquio, podemos nos encontrar, não é? Vá me visitar no alojamento da universidade.
        - Eu não vou poder ir - respondeu a outra.
        - Não? Por quê?
       Cada uma a sua maneira, elas ficavam com semblantes tristes. A mocinha parecia ser operária da fábrica de tecelagem. Talvez tenha se demitido da fábrica e se mudado para Tóquio, mas para se encontrar com a estudante ficara esperando quase três horas na estação.
        - Vamos nos ver em Tóquio? - tornou a dizer a estudante.
        - Sim.
        - Adeus.
        - Adeus.
        Os ombros da operária estavam encharcados. Imaginei que assim também teriam ficado os ombros da estudante.

        Alguns parágrafos ficaram desalinhados, mas eu tentei de tudo e o editor não quer colaborar. Mas não é um conto tão grande assim, é? Definitivamente não. Tem contos de cinco páginas no mesmo livro! Os mais curtos, em geral, são mais cotidianos, onde Kawabata não nos mostra as reflexões dos personagens, mas nos permite termos as nossas próprias.
        Senti-me particularmente atraída por esse conto porque um dos poucos momentos em que damos uma parada na nossa rotina corrida e finalmente prestamos atenção em detalhes pequenos é quando estamos num trem ou num ônibus. Não podemos correr, não podemos fazê-los ir mais rápido, então somos obrigados (que obrigação boa!) a parar e perceber detalhes sutis de pessoas para as quais não dedicaríamos um milésimo de atenção caso cruzassem conosco no meio da rua. A fisionomia, as manias, de onde ela vêm; são coisas que penso com frequência quando volto para casa de ônibus. Fico me perguntando de onde cada uma dessas pessoas vêm, e quando não há nada que me diga isso, eu imagino, eu bolo, eu crio. E me divirto com esses pensamentos! Mas, infelizmente, hoje o mundo estão tão corrido, tão rápido, tão dinâmico, que as pessoas dificilmente fazem isso. (●´・△・`)はぁ〜 Elas dificilmente param. Fico me perguntando como elas arranjam tempo pra respirar!
        É isso, gente. Espero que tenham curtido. Vamos debater esse conto? O que vocês acharam? Que impressão causou em vocês? Como imaginam que seja esse cara que está narrando o conto? Acham que ele é stalker observador? Que outras histórias surgiram na sua cabeça a partir dessa? Vamos, vamos falar mais!

Kissu ばいばい(⌒▽⌒)ノ~~~

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